Sílex #0
Este é um rascunho da edição de estreia da newsletter Sílex. Um laboratório para testes de conteúdo, design e envio.
Sonho lúcido
por Daniel Galera
O sonho se manifesta na mente enquanto dormimos. É fantasia, devaneio, fluxo inconsciente transbordando na vigília. Por causa disso, podemos esquecer que os sonhos também são realidade. Estão inscritos no mundo material a que pertencem nossos corpos, planeta e tecnologias.
Um sonho lúcido é um sonho guiado em alguma medida pela intenção. Rituais e tradições de povos antigos exploram, desde os primórdios da humanidade, o caráter criador e exploratório dos sonhos guiados e compartilhados. Práticas modernas e científicas também buscam o governo intencional dos sonhos para fins terapêuticos e produtivos.
Ainda que o sonhos jamais tenha perdido sua qualidade premonitória e reveladora na cultura, a modernidade tende a reduzi-lo a um fenômeno individual e involuntário, ou a mero índice de operações mentais circunscritas à neurociência e à psicologia.
Sidarta Ribeiro afirma que “entre as capacidades ancestrais que precisam ser recuperadas, o sonho tem lugar central.” A tarefa, segundo o neurocientista, exige memória, intenção, interpretação e coletivização das imagens oníricas. Sonhar com lucidez, mas também sonhar juntos. Essa perspectiva é essencial no desenvolvimento e aplicação de novas tecnologias transformadoras e no enfrentamento dos riscos sociais e ambientais — inéditos em natureza e escala — que nos exigem ação consciente.
Pensar a inovação a partir do sonho nos lembra que o avanço do conhecimento é sempre irrigado por uma multiplicidade de saberes. A ciência, a especulação e a estética se inspiram mutuamente nessa perspectiva onírica. A capacidade de monitorar e interpretar a realidade para enxergar o futuro se amplia quando percebemos tantas camadas sobrepostas,para além de dualismos e romantizações, contando com auxílio, inclusive, das próprias tecnologias.
No romance Klara e o sol, Kazuo Ishiguro, vencedor do Nobel, narra do ponto de vista de uma robô dotada de inteligência artificial e criada para fazer companhia a crianças solitárias. Recarregável por luz solar, Klara crê que o sol é uma entidade consciente que, se devidamente honrada, pode nutrir e curar os males de qualquer ser. No desfecho da história, essa crença, irracional ou não, termina por exercer efeito benéfico real sobre sua amiga humana.
São muitas as formas de inteligência no mundo, e elas podem e devem ressoar e aprender umas com as outras. Sonhar o futuro com lucidez envolve estar atento a todas elas, aliando a coragem da imaginação a uma ética do cuidado.
Pensar a inovação a partir do sonho nos lembra que o avanço do conhecimento é sempre irrigado por uma multiplicidade de saberes. A ciência, a especulação e a estética se inspiram mutuamente nessa perspectiva onírica. A capacidade de monitorar e interpretar a realidade para enxergar o futuro se amplia quando percebemos tantas camadas sobrepostas,para além de dualismos e romantizações, contando com auxílio, inclusive, das próprias tecnologias.
No romance Klara e o sol, Kazuo Ishiguro, vencedor do Nobel, narra do ponto de vista de uma robô dotada de inteligência artificial e criada para fazer companhia a crianças solitárias. Recarregável por luz solar, Klara crê que o sol é uma entidade consciente que, se devidamente honrada, pode nutrir e curar os males de qualquer ser. No desfecho da história, essa crença, irracional ou não, termina por exercer efeito benéfico real sobre sua amiga humana.
São muitas as formas de inteligência no mundo, e elas podem e devem ressoar e aprender umas com as outras. Sonhar o futuro com lucidez envolve estar atento a todas elas, aliando a coragem da imaginação a uma ética do cuidado.
São muitas as formas de inteligência no mundo, e elas podem e devem ressoar e aprender umas com as outras. Sonhar o futuro com lucidez envolve estar atento a todas elas, aliando a coragem da imaginação a uma ética do cuidado.
Alberto Manguel: Os perigos da imitação
O que preocupa na IA é que as imitações que ela produz, baseadas em evidências estatísticas, podem ser tão convincentes que as confundimos com a realidade.
Em entrevista à Sílex, o bibliófilo e ensaísta argentino, autor do clássico Uma história da leitura, medita sobre o valor do conhecimento humano em uma era de algoritmos e sobre como a literatura pode dar conta de uma realidade em constante mutação.

Sílex: Mesmo com a ascensão dos meios digitais, nunca foram publicados tantos livros impressos. Os leitores não parecem dispostos a abrir mão deles. As revistas impressas também ensaiam um retorno. O livro segue sendo a tecnologia perfeita para a leitura?
Alberto Manguel: Em nossas histórias longas e conturbadas, conseguimos, apesar de tudo, bolar um punhado de criações perfeitas: a roda e a faca, por exemplo. Na sociedade da palavra escrita, o códice é uma dessas invenções que não podem ser aprimoradas. Cada suporte de texto tem as suas próprias vantagens e desvantagens: o códice (as páginas reunidas que formam um volume) reúne a conveniência portátil das tábuas de argila, a continuidade do texto do pergaminho e a ubiquidade do texto eletrônico, que permite que você pule de uma seção a outra. Mas devemos lembrar que nenhuma tecnologia suplanta inteiramente as suas antecessoras: o códice coexiste com a tábua (iPhone) e o pergaminho (a tela do computador).
S: Escritores que estão processando as empresas de inteligência artificial nos tribunais dos Estados Unidos têm propagado aquilo que ficou conhecido como “teoria da diluição” — a ideia de que a produção massificada de textos pelas máquinas pode diminuir o valor, a singularidade e o significado da escrita humana. O medo de que possamos ser inundados pela informação é tão antigo que já aparece no livro de Eclesiastes, que menciona o “enfado da carne”. Com a IA, textos passam a ser produzidos em escala quase infinita, às vezes sem intenção nem leitores. No conto A biblioteca de Babel, Jorge Luis Borges imaginou uma biblioteca infinita que teoricamente contém todos os textos possíveis, mas a sua disposição física nos impede o acesso a seu significado. Como a leitura pode prosperar nesta nova biblioteca de Babel?
AM: A quantidade não é o que preocupa na produção da inteligência artificial. A biblioteca de Babel de Borges contém tudo porque é fruto de uma combinação quase infinita de um determinada quantidade de letras, sem acesso a um banco de dados que foi previamente fornecido (como os usados pelas IAs). Os livros na biblioteca de Babel são produções únicas, em sua maioria desprovidas de sentido, mas com certeza não são imitações de nada. O que preocupa na IA é que as imitações que ela produz, baseadas em evidências estatísticas, podem ser tão convincentes que as confundimos com a realidade. De acordo com Platão, toda arte é uma imitação imperfeita do arquétipo, mas a IA é uma imitação carente de emoção ou inspiração inconsciente, e como tal desprovida da qualidade empática que permite que o leitor o espectador participe da criação da obra artística. Um psicólogo usando um vocabulário antropomórfico para descrever ações mecânicas poderia chamar as ações de uma IA de “psicopáticas”. “O psicopata”, escreveu um psicólogo do início do século vinte, “é uma máquina de reflexos sutilmente construída, capaz de imitar perfeitamente a personalidade humana. Sua reprodução de um homem completo e acabado é tão perfeita que ninguém que o examine em contexto clínico é capaz de dizer em termos científicos ou objetivos por quê, ou como, ele não é real.” Uma falsificação convincente, mas ainda assim uma falsificação.
S: Muitos escritores consideram desafiadora a tarefa de retratar nosso modo de vida atual, no qual estamos sempre online, interagindo através de dispositivos eletrônicos. A produção literária contemporânea está dando conta de representar as experiências humanas na atualidade, incluindo os impactos das novas tecnologias? Ou temos mais chance de encontrar verdades sobre nossa condição no cânone literário?
AM: Isso depende de cada um de nós, individualmente. A cultura sempre dependou da disposição do indivíduo de se engajar com uma obra de arte, deixada em um limbo de semi-existência a partir do momento em que o autor a considera pronta (ou abandonada). Mas um bom artista é capaz de retratar qualquer coisa de um modo imaginativo que seja ao mesmo tempo empático e admonitório. Os horrores da guerra não são menos difíceis de descrever do que a experiência de vida eletrônica dos tempos atuais.
S: A história literária está repleta de narrativas em que humanos tentam criar seres capazes de agir por vontade própria — de Frankenstein a Geppetto, entre outros personagens. Essas histórias podem nos ajudar a navegar na era das máquinas inteligentes?
AM: As histórias sempre podem ajudar, se estivermos dispostos a ouvir o que elas têm a dizer. Mas na maior parte do tempo, contadores de histórias são Cassandras, e quando percebemos que eles nos alertavam sobre as consequências de nossas ações, é tarde demais.
S: Em diversos artigos e livros, você trabalha a noção de que a biblioteca de uma pessoa é uma espécie de autobiografia. Porém, cada vez mais os leitores escolhem suas leituras com base em indicações de algoritmos. Os algoritmos de recomendação afetam esse caráter autobiográfico de um percurso de leituras?
AM: Não mais do que os conselhos do horóscopo diário em um jornal. Nossas bibliotecas são nossos espelhos íntimos: se permitimos que esses espelhos sejam instalados por decoradores sem talento, podemos terminar habitando uma sala de estar vistosa que não é nossa em nenhum sentido verdadeiro. Como disse Oscar Wilde, recomendar um livro é sempre uma impertinência.
S: Em Uma história da leitura, você revela as numerosas transformações dos nossos hábitos de leitura ao longo do tempo. Até o século 9, seria muito estranho ver alguém lendo em silêncio, sem enunciar o texto em voz alta ou balbuciar. No século 21, nos acostumamos a ler no celular ao mesmo tempo em que executamos várias outras tarefas. O que podemos esperar dos hábitos de leitura no futuro?
AM: Não sei: não tenho uma bola de cristal. E não sei se temos um futuro. Depois de nos exterminarmos tentando destruir o planeta, não haverá mais livros nem leitores.
S: Se você fosse escrever esse livro hoje, como a inteligência artificial entraria na narrativa? Ela representaria uma ruptura ou uma continuidade na história da leitura?
AM: Você vai precisar esperar até ler o meu novo livro, Resistance [Resistência], que sai esse ano pela Yale University Press (e pela Companhia das Letras no Brasil).
S: Você descreveu as bibliotecas muitas vezes como espaços de memória. As bibliotecas públicas estão penando para sobreviver em quase todas as regiões do mundo, enfrentando falta de financiamento e leitores. Em Nova York, o prefeito Zohran Mamdani frustrou seu eleitorado ao quebrar a promessa de um investimento maior em bibliotecas. O Brasil perdeu centenas de bibliotecas públicas nos últimos dez anos. Você também observou que as bibliotecas são constituídas não somente pelo acúmulo de conhecimento, mas também por processos de seleção, esquecimento e censura. Como as bibliotecas se encaixam no cenário das mídias digitais e da inteligência artificial, e como podemos preservá-las?
AM: As bibliotecas são e sempre foram o meio-termo entre as restrições da sociedade e o livre questionamento do cidadão. As bibliotecas são o símbolo da nossa identidade coletiva, e mesmo que estejam ameaçadas (como sempre estão), essa função não pode ser completamente erradicada. Após a destruição do Templo de Jerusalém, os judeus continuaram realizando os rituais presenciais como se o edifício material seguisse em pé. Uma biblioteca não deixa de funcionar porque foi derrubada: prova disso é que a de Alexandria persiste em nossa memória, assim como a de Sarajevo.
S: As IAs generativas baseadas em grandes modelos de linguagem (LLMs) são capazes de emular, com fidelidade às vezes impressionante, o estilo de um autor a partir da análise estatística de seus textos. O estilo de um escritor pode ser reduzido a um processo estatístico, por mais avançado que seja? Existe algo nele que ainda esteja fora do alcance da computação?
AM: Textos gerados por inteligência artificial são simplesmente uma forma enganadora de imitação, como um Vermeer falso ou uma peça apócrifa de Shakespeare.
S: Como exercício de pensamento, vamos imaginar que no futuro breve uma inteligência artificial produza uma obra textual amplamente considerada sublime e universal, ganhando um status de clássico atemporal como Dom Quixote ou A divina comédia. Nesse cenário, estaríamos diante de uma prova do gênio criativo da máquina ou de uma alteração significativa em nossos critérios estéticos?
AM: Borges propôs um cenário semelhante em Pierre Menard, autor do Quixote. De novo, seria apenas uma imitação. Exceto que, nesse caso, poderíamos, a partir da nossa leitura infundida pelo tempo, conceder a ela um significado que residiria somente na nossa interpretação, não na coisa em si.
S: E por sinal: você já experimentou usar alguma ferramenta de inteligência artificial? Em caso positivo, poderia comentar como foi?
AM: Não. Fico o tempo todo eliminando o “Assistente de IA” do meu Word. No fundo, sou um anarquista, e no meu escritório há uma faixa que ganhei de presente do meu filho há muitos anos: “NEM DEUSES NEM SENHORES.”